quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ernest Hemingway - Contos - volume 3

Hemingway, Ernest, 1899-1961. Contos de Ernest Hermingway / tradução de José J. Veiga. - 2a. ed. - Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2006. - 416p. - (Obra completa, v.3)

"Se eu ia embora queria guardar tudo na memória e me despedir. O fogão era enferrujado e a tampa do reservatório de água quente estava quebrada. Acima do fogão tinha um limpador de pratos com cabo de madeira pendurado na beira de uma prateleira. Meu pai uma noite jogou esse limpador de pratos num morcego. O impador ficou pendurado ali para meu pai se lembrar de comprar outro, e acho que também para se lembrar do morcego. Peguei o morcego com uma rede de cabo comprido e pendi-o numa caixa com tampa de tela. Tinha olhos pequeninos e dentes também pequeninos, e ficava encolhido na caixa. Soltamos ele na praia do lago no escuro; ele voou por cima do lago elegantemente à flor da água, depois subiu, virou e voou por cima de nós e finalmente sumiu entre as árvores no escuro. Na cozinha havia duas mesas: uma, em que comíamos, e a outra, em que preparávamos a comida. As duas eram forradas com oleado. Tinha um balde de granito para tirar água do poço. Na porta da despensa tinha um rolo para toalha e forros de mesa numa prateleira acima da estufa. No canto ficava a vassoura. A caixa de lenha estava pela metade e as panelas ficavam penduradas na parede.
Passei os olhos por toda a cozinha para guardá-la na memória porque gostava muito dela.
- Então - disse meu pai. - Acha que vai poder se lembrar dela?
- Acho que sim.
- E vai lembrar o quê?
- Todas as nossas brincadeiras.
- Não só de abastecer a caixa de lenha e puxar água?
- Não foi trabalho pesado.
- Não. Não é pesado. Não tem pena de ir?
- Não se for para o Canadá.
- Não vamos nos estabelecer lá.
- mas vamos ficar um pouco.
- Não muito.
- E de lá vamos para onde?
- Veremos depois.
- Pouco me importa para onde iremos.
- Continue assim - disse meu pai. Acendeu um cigarro e ofereceu-me o maço. - Você fuma?
- Não.
- Ótimo. Agora você vai lá fora, sobe ao telhado e põe o balde na chaminé. Eu fecho a casa."

Ernest Hemingway nasceu em Oak Park, Illinois, em 1899, e começou sua carreira de escritor no The Kansas City Star, em 1917. Em 1921 mudou-se para Paris, onde se juntou a um grupo formado por Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerard, Ezra Pound e Ford Madox Ford. Seu primeiro livro foi Três Histórias e Dez Poemas, publicado em Paris em 1923.

Um livro de contos é uma excelente oportunidade de se desvendar um autor e quando se trata de Ernest Hemingway, quem sabe um mito. A reedição de sua obra, Contos revela ao leitor brasileiro os efeitos de estilo muitas vezes com uma linguagem desadjetivada, desmetaforizada e fluente, muitas vezes com crueza na descrição de cenas de mutilação e morte, causando um efeito impressionante onde conflitos e dramas são submetidos a análise do atento leitor de seus escritos . O tema morte sempre esteve presente na obra do autor que muitas vezes utiliza a linguagem jornalística causando impacto na narrativa aos desavisados leitores.Luiz Antônio Aguiar lembra em prefácio de Contos - Vol. 3 que tão poucos terão sido em grau tão extremado vítimas de estereótipo como o autor. Fascínio exercido no leitor no momento de extrema popularidade do autor... suposições.

Certo somente que valores como fragilidade, perplexidade e angústia da perspectiva de morte aleatória e frequentemente desnecessária, quando na guerra, em meio ao morticínio, os combatentes perdem contato com "os ideais e os objetivos políticos". Valores questionados por aquele que conviveu em muitas guerras, a Primeira e a Segunda, com a Guerra Civil Espanhola, além de correr o mundo inteiro, buscando a violência das touradas espanholas, das caçadas na África e das lutas de boxe do submundo americano. Equívoco puro.  Ler alguns de seus contos inéditos apresentados nesta edição e conhecer o autor da obra O Velho e o Mar, agraciada com o Pulitzer e em 1954 recebeu o Nobel de literatura pelo conjunto de sua obra é adentrar em sensível e prazerosa narrativa.

domingo, 26 de setembro de 2010

Louisa May Alcott - Mulherzinhas



Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, tradução de Vera Maria Marques Martins. Título original: Little Women, Editora Nova Cultural Ltda, 2003 - São Paulo - SP.


- Sem presentes, o Natal não vai ser Natal - resmungou Jô, deitada no tapete.
- É horrível ser pobre! - suspirou Meg, olhando para o vestido velho que usava.
- Não acho justo que algumas meninas tenham tantas coisas bonitas, e outras não tenham nada - acrescentou a pequena Amy, fungando, revoltada.
- Nós temos mãe, pai e umas às outras - ponderou Beth em tom satisfeito, lá de seu cantinho perto da lareira.
Por alguns momentos, ninguém falou.
Os quatro rostinhos iluminados pelo fogo animaram-se por um instante.
- Não temos pai e não teremos por muito tempo - Jô lembrou, abatendo os ânimos.

Tenho dois exemplares do livro. Um adquirido em coleção de banca, a que faço referência, o outro ganhei em um concurso de contos (primeiro e único) que participei. Inicio o IV capítulo desta obra sem compreender o motivo desta demora na procura de sua leitura apesar das excelentes referências dos leitores (tanto feminino quanto masculino) familiares, o que estou por comprovar adiantando aqui esta resenha. Havia feito uma brincadeira em postagem anterior de trazer uma leitura mensal clássica. Começar por Mulherzinhas, já vejo como iniciar com chave de ouro pois a leitura é envolvente, com abordagem nos aspectos da convivência e do amor em família no contexto social envolvendo as discrepâncias da vida cotidiana em época de guerra.

A leitura foi um hábito na família de Louisa May Alcott, autora de "Mulherzinhas", não como uma obrigação, mas como um prazer, já influenciados pelo patricarca da família, Bronson Alcott, conhecido por seus revolucionários métodos de ensino, na própria escola, a Temple School, onde a interação dos alunos e a crença de que o aprendizado deve ser um prazer para as crianças.A autora, que teve esta obra por encomenda da editora Niles, de Boston, transformou o pedido de "um livro para meninas" no mais surpreendente sucesso que escreve em Orchard House, entre maio e julho de 1868. O romance, baseado nas experiências de Louisa e de suas irmãs desde a puberdade até o casamento, retrata as mudanças da sociedade da época. A escritora se inspira na vida e na personalidade da mãe e das irmãs para criar as personagens Marmee (Abigail), Meg (Anna), Beth (Elisabeth), Amy (May) e Jo (ela própria).

O grande sucesso de 'Mulherzinhas" levou a independência financeira a autora que havia dito em tempos difíceis, desgastada com a pobreza da família: "Hei de fazer alguma coisa, não importa o quê... lecionar, costurar, representar, escrever, qualquer coisa para ajudar minha família; e serei rica e famosa e feliz antes de morrer, vocês vão ver se não!" Esta parece ser a trilha de Louisa, confrontando uma sociedade que oferece poucas oportunidades de emprego às mulheres. Louisa sai à procura de trabalho, disposta a fazer qualquer coisa para ganhar dinheiro, dentro das possibilidades ao alcance de uma menina adolescente. Em 1862, com o início da Guerra Civil Americana, Louisa trabalha como enfermeira voluntária, "A Enfermeira do Frasco", assim conhecida por combater o mau cheiro que impregna as dependências do hospital, onde aquire o hábito de passar água de lavanda no corpo e nos móveis e objetos ao seu redor. Inspiração para o livro "Hospital Sketches", as cartas que escrevia para casa contando tais condições precárias de higiene e ventilação, assim como a indiferença dos profissionais diante da deplorável situação.

Em 1870 Louisa participa ativamente do movimento pela abolição da escravatura e pela aprovação do direito ao voto feminino. Em 1879 viria a ser a primeira mulher da região de Concord a se inscrever no colégio eleitoral da cidade. Publica também "Homenzinhos" além de uma série de livros para leitores jovens que tornaram-se seus fãs pela escrita inovadora, diferente da literatura da época. Seu último romance é publicado em 1886: "Jo´s Boys", entretanto, a saúde precária por ter adquirido febre tifóide como enfermeira durante a guerra, falece em 1888, dois dias após a morte do pai.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

50 Contos de Machado de Assis - selecionados por John Gledson

"Ler Machado de Assis era uma tentação permanente, quase como se fosse um vício a que tivesse de resistir.", dizia Carlos Drummond de Andrade.

Ler 50 contos de Machado de Assis, do professor John Gledson é um excelente lugar para praticar este vício. Dos cerca de 200 dos 50 contos escolhidos foram todos escritos depois de 1878, quando o autor já tinha quase 40 anos.

Costumo ler um livro de contos paralelamente a minhas leituras, para permitir um tempo de reflexão à obra que está sendo lida. Ler os contos de Machado de Assis é formidável pois ele continua atualíssimo com seu jeito de se dirigir diretamente ao leitor, constrói uma leitura íntima, participativa.

Muitas são as tentativas de rotular o 'Bruxo do Cosme Velho' que livremente escreveu sobre temas analisados como repetitivos (ciúme, dinheiro, parasitismo da elite) e até citados na revista "Bravo!" no artigo entitulado "As Obsessões de Machado de Assis", "onde estudos se debruçam sobre os temas que atormentaram o escritor ao longo da carreira", por Ariel Kostman. Certo mesmo é que Machado sabia onde queria chegar, sabia conquistar o leitor tão difícil em seu tempo histórico onde o romantismo imperava absoluto e devia se divertir muito com o que escrevia, pois suas escritas são antes que irônicas, muito divertidas sem contar o aprofundamento psicológico nos personagens, e isto a 25 anos das deduções que Freud poderia ter feito em alguns campos que Machado acabou por superar o conceituado profissional.

Segundo artigo especial  sobre a vida de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) na revista "Almanaque das Letras", Ano 1 - n. 2 - Jan de 2008, o autor da imortal Capitu passou por todos os gêneros literários. Foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo. è o fundador da cadeira n. 23 da Academia Brasileira de Letras e um dos criadores da casa. Por mais de dez anos esteve à frente da presidência da Academia. Teve origem bem humilde: filho do operário Francisco José Machado de Assis e de Leopoldina Machado de Assis, perdeu a mãe muito cedo. Foi criado pela madrasta, lavadeira e doceira. Sem meios para cursos regulares, estudou como pode e, em 1855, aos 16 anos, publicou o primeiro trabalho literário, o poema "Ela", na Marmota Fluminense.

Autor de 9 romances, 4 livros de poesia, 7 de contos, 10 peças de teatro, além de críticas, traduções e crônicas, Machado foi o crítico da sociedade fútil, da falsidade, da retórica vazia, mas foi consciente de que é impossível fazer o relato completo da realidade, pois o sentido das coisas não é estável, é movediço; não é sólido, mas gelatinoso. Seu humor é gráfico, brinca com associações de idéias, desenha-se na imaginação do leitor, não vem da piada explícita. Daí seu esmero retórico, informa a revista 'Língua Portuguesa' , Ano III - número 29 - 2008.

Ah, Machado, só lendo!

Sumário:  O machete, Na arca, O alienista, Teoria do medalhão, Uma visita de Alcebíades, D. Benedita, O segredo do Bonzo, O anel de Polícrates, O empréstimo, A sereníssima república, O espelho (*), Verba testamentária, A chinela turca, A igreja do Diabo, Conto alexandrino, Cantiga de esponsais, Singular ocorrência, ùltimo capítulo, Galeria póstuma, Capítulo dos chapéus, Anedota pecuniária, Primas de Sapucaia!, Uma senhora, Fulano, A segunda vida, Trina e una, Noite de almirante, A senhora do Galvão, As academias de Sião, Evolução, O enfermeiro, Conto de escola, D. Paula, O diplomático, A cartomante, Adão e Eva, Um apólogo, A causa secreta, Uns braços, Entre santos, Trio em lá menor,Terpsícore, A desejada das gentes, Um homem célebre, O caso da vara, Missa do galo, Idéias de canário, Uma noite, Pílades e Orestes, Pai contra mãe.

(*) leia on-line em http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/espelho.html

Assis, Machado de / 50 contos / Machado de Assis; seleção, introdução e notas John Gledson. - São Paulo : Companhia das Letras, 2007.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Carlos Marchi - Fera de Macabu / Sem Controle


Carlos Marchi - Fera de Macabu

Extraordinária leitura, difícil é saber onde inicia o histórico e finda o romance ou onde inicia o fantástico e termina o real na empolgada prosa do jornalista Carlos Marchi que conta minuciosamente a condenação à morte de um rico fazendeiro em Macaé, no norte fluminense, vítima inocente de uma conspiração política, a tão conhecida saga de Motta Coqueiro. A propósito do fato, analisa detalhadamente a dura legislação penal brasileira do tempo do Império, as discussões sobre a pena de morte e reconstitui coloridamente o cotidiano das fazendas no rico norte fluminense, até os tempos atuais, como eram os casamentos, a vida dos escravos, o hábito de provocar abortos para não gerar escravos, as formas de bruxarias. Notável se revela o relato integral do encontro de Pedro II com o escritor Victor Hugo em Paris a quem tem grande admiração ao ponto de levar flores em seu túmulo pós-morte, acompanhando toda a literatura do autor, inclusive o livro aqui já mencionado aqui no blog Nós Todos Lemos, "O último dia de um condenado à morte".

"Enquanto os personagens da história viviam, sofriam e moriam, a pena de morte ainda vigorava oficialmente no Brasil, muito embora desde o momento em que alguém contou a Pedro II a verdadeira história de Úrsula das Virgens, nunca mais um homem livre tenha subido novamente os treze degraus da morte. O enforcamento de Manoel da Motta Coqueiro foi o ponto-limite das manifestações de intolerância nacional no século 19; depois dos enforcamentos de Flor, Faustino e Domingos, executados três meses depois de Coqueiro, o imperador, consternado por aquela modalidade estúpida de assassinato oficial, desmascaraa pela condenação injusta de Coqueiro, passou a comutar sistematicamente as sentenças máximas atribuídas a homens livres; logo depois ele já comutava as penas máximas aplicadas a escravos; por pior que fossem os seus crimes, o imperador sempre as transformava em penas de galés perpétuas."

Falando em último dia de um condenado à morte, o autor detalha com graça as felizes avançadas técnicas portuguesas do bem-morrer, copiadas pelos americanos em detrimento das peripécias inglesas na arte de enforcamento.

"O fazendeiro não era tão indigitado assim, pois.Tinha boas razões para agradecer a Deus e a D. Pedro I. Ao primeiro porque, com sua infinita generosidade, iluminou as autoridades e os carrascos no caminho da evolução, no sentido da extinção de todos os castigos cruéis estabelecidos pelas Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas e na descoberta de novas tecnologias para a bem-morrer; ao segundo, porque foi seu braço terreno que determinou legalmente a extinção dos castigos perversos que toldavam de terror as  execuções oficiais no Brasil. Não havia nada a reclamar, portanto. Poderia ter sido muito mais doloroso do que foi.
Se não fossem, naturalmente (e pela ordem),Deus e Pedro I."

A imprensa acompanha as investigações com estardalhaço e empresta a Coqueiro um apelido incriminador - é a Fera de Macabu. Pouco tempo depois do enforcamento descobre-se que o fazenderio tinha sido a inocente vítima de um terrível erro judiciário. Abalado, o imperador, um humanista em formação, decide que dali em diane ninguém mais será enforcado no Brasil.

"Quanto ao fantasma de Coqueiro, o principal e derradeiro personagem deste livro, continuou vagando errante pelas noites escuras da praça da Luz, até muito tempo depois de vencida a maldição dos cem anos, sempre envolto na mesma túnica branca e esvoaçante de pano grosseiro com que foi enforcado, revelam os melhores contadores de histórias de Macaé: quando o fantasma gemia urros ininteligíveis que só as almas penadas sabem proferir, ouvia-se também o lúgubre tilintar das correntes que pendiam de seus pulsos, há muito rompidas. Há quem granta que ainda hoje ele aparece, nas negras noites sem lua da praça da Luz, como um lobisomem eterno e inestinguível, para assustar os meninos que, como que, nasceram ali perto, estudaram no Colégio Estadual Luiz Reid e foram criados sob as penas da centenária maldição na heróica, leal e mui misteriosa cidade de Macaé."

A história de Motta Coqueiro, além de peça teatral, conforme detalha o livro Fera de Macabu, foi lançada no cinema em 2007 com o título de Sem Controle.


Carlos Marchi começou a atuar como jornalista em 1971, em pelnos anos de chumbo. Trabalhou em várias empresas jornalísticas,no Rio de Janeiro e em Brasília (Correio da Manhã, Última Hora, O Globo, Rede Globo, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil, além de colaborar com dezenas de outras publicações). Teve intensa atividade política e sindical; em 1984, foi assessor da candidatura Tancredo Neves. Tem como marca original de seus trabalhos o olho clínico do repórter e o texto esmerado, além da visão de mundo humanista.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade


A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


"Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!"

Sumário: Considerações do poema, Procura da poesia, A flor e a náusea, Carrego comigo, Anoitecer, O medo, Nosso tmepo, Passagem do ano, Passagem da noite, Uma hora e mais outra, Nos áureos tempos, Rola mundo, Áporo, Ontem, Fragilidade, O poeta escolhe seu túmulo, Vida menor, Campo, chinês e sono, Episódio, Nova canção do exílio, Economia dos mares terrestres, Equívoco, Movimento da espada, Assalto, Anúncio da ros, Edifício São Borja, O mito, Resíduo, Caso do vestido, O elefante, Morte do leiteiro, Noite na repartição, Morte no avião, Desfile, Consolo na praia, Retrato de família, Interpetação de dezembro, Como um presente, Rua da madrugada, Idade madura, Versos à boca da noite, No país dos Andrades, Notícias, América, Cidade prevista, Carta a Stalingrado, Tlegrama de Moscou, Mas viveremos, Visão, Com o russo em Berlim, Indicações, Onde há pouco falávamos, Os últimos dias, Mário de Andrade desde aos infernos, Canto ao homem do povo Charlie Chaplin

Andrade, Carlos Drummond de , 1902-1987 - A rosa do povo / Carlos Drummond de Andrade; prefácio de Affonso Romano de Sant´Anna. - 42. ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009;

Óleo sobre tela: Lis G.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

palavra expressa - autores diversos


A BOCA DA LUA

E eu aqui, namorando
A lua.
Num quarto crescente
Que mais parece uma boca.
A boca sua.
Sob os meus pés,
O mundo das águas
Azuis.
Hoje mansas,
Parecem seguir o caminho
Da luz.
Há dias que eu não vejo
Terra
E a brisa alimenta a chama
De partida. No horizonte tem uma
Embarcação
E eu aqui, querendo beijar
A lua
Num quarto crescente
Que mais parece uma boca
A boca sua.

(Jorge Piri)


A ESPERA

Singular é a espera por teu encontro.
Metade de mim nada manso,
Tudo ciclone: vazio intenso neste cômodo derradeiro.
Lá fora o pálido inverno arde,
Num imenso azul de fim de mundo
Plácidas constelações derramadas
Pelo nada do universo (pretume uniforme
Que me emudece de espanto e respeito).
Espreito fechaduras por entre portas inexistentes.
Reviro a alma, inquietante.
Quietude.
Esperar-te é convulsionar-me de sensações hediondas.

(Carla Guedes)

Olhando a poesia do caro colega Piri, sinto saudades do tempo em que em recitais a céu aberto nos reuníamos para declamar tantas outras palavras. Ver suas poesias e de tantos outros poetas reunidos em um único espaço traz esperança de que a terra do ouro negro é também a terra onde a sensibilidade de seus filhos a engrandecem através da palavra expressa.

Para o poeta Octavio Paz, é preciso democratizar a palavra poética para fazer da sociedade um poema coletivo. Foi a proposta do livro palavra expressa. Pelas mãos de dezessete poetas , dos encontros promovidos pelo projeto literário Palavra Expressa, da Biblioteca Pública Municipal Dr. Télio Barreto e fundação Macaé de Cultura, resultou esta coletânea dos escritores que já viveram, vivem ou que se deslocam pela cidade de "sangue negro", que dela extraem matéria para compor o seu tema urgente, seu canto de vidamorte. Esse canto é sem fronteiras: percorre o Atlântico, expande-se e encarna-se na deriva humana.

São poetas macaenses ou poetas que na e com a cidade inscrevem traços íntimos, afetivos. Alguns evocam a terra onde o sabor da macaba arde na boca. Surpreendem-se com o enlace rio-mar, com a altura e a profundidade: cidade dos contrastes.

O desejo da coletânea é registrar a diferença, os desvios: a palavra pronunciada no presente, as identificações fragmentárias, a mobilidade do entorno e do interno. O fluxo que a cidade traga e entrega. Mas também é um exercício de cartografar confluências. Pura produção poética que há em Macaé, a Princesinha do Atlântico.

Autores: Carla Guedes Braga, Carla Pereira da Silva, Conceição de Maria Pereira Alves, Corsinio Soares Francisco, Gerson Dudus, Harlen dos Santos, Iêda Moraes da Silva, Jaíra Pacheco Branco, Jorge Piri, Joventino de Oliveira Gomes, Laurita de Souza Santos Moreira, Maria Clara Curty Soares Bastos, Regina Céli Moreira Nunes, Rita Maria Salazar Brennand, Rosane Machado de Carvalho, Sandra Olivia Wyatt, Silvana Teixeira.

Palavra expressa / org. Rosane Machado Carvalho, Gerson Dudus, Carla Pereira Silva. Rio de Janeiro: imprimatur, 2008. 92p.

Edla van Steen - Viver & Escrever

Viver & Escrever : volume 1 / Edla van Steen. - 2 ed. - Porto Alegre, RS : L&PM, 2008.

Quem é o escritor? Qual é o seu ofício? Qual a sua gênese? Onde e como detectar-lhe as vivências? O que vem a ser o processo de criação?

Captar o retrato que construiu de si mesmo foi tarefa bem concluída por Edla van Steen na série Viver & Escrever através de encontros com autores Mário Quintana, Orígenes Lessa, Ricardo Ramos, Nélida Pinon, Dias Gomes, Jorge Amado, Edilberto Coutinho, Ary Quintella, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, Lêdo Ivo, Octávio de Faria, Menotti Del Picchia (série 1); João Cabral de Melo Neto, Dyonélo Machado, Maria de Lourdes Teixeira, Plínio Marcos, Geraldo Ferraz, Raduan Nassar, Cyro dos Anjos, Luiz Vilela, J.J. Vieira, Osman Lins, Ivan Ângelo, Fernando Sabino, Décio Pignatari (série 2) e Vinícius de Moraes, Herberto Sales, Marcos Rey, Nelson Rodrigues, Luís Martins, Raquel de Queiroz, Otto Lara Resende, Jorge Andrade, Lygia Fagundes Telles, Adonias Filho, Autran Dourado, Moacyr Scliar, Henriqueta Lisboa (série 3). Edla conseguiu liberar os autores de sua modéstia, do pudor de falar de si mesmos ou de suas obras.

"Viver & Escrever é realmente um livro para se ler e reler pois põe a nu alguns encantos da alma dos entrevistados, revelando a delicadeza e a penetração psicológica de Edla van Steen na sa busca pela resposta essencial." (Fausto Cunha, escritor e crítico literário).

Edla começou com o pé direito nesta missão (ou seria com o 'sapato florido'). Em se tratando de Quintana, um engano em bronze jamais será um engano eterno... Bom, Mário Quintana que o diga, ou bem o disse:

"Ser poeta não é uma maneira de escrever. É uma maneira de ser. O leitor de poesia é também um poeta. Para mim o poeta não é essa espécie saltitante que chamam de Relações Públicas. O poeta é Relações Íntimas. Dele com o leitor. E não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta é que descobre o leitor, que o revela a si mesmo."

"Eu nada entendo da questão social. Eu faço parte dela, simplesmente..."

"A poesia engajada? Eis aí uma questão com que, em certas épocas, costumam ser assaltados os poetas. Impossível não levá-la em conta quando se pensa no que fez pela abolição da escravatura um poeta como Castro Alves."

"Uma boa causa jamais salvou um mal poeta. Essa gente poderá fazer mais pelo povo candidatando-se a vereadores. È muito de estranhar essa campanha contra o lirismo, isto é, contra 95% da poesia de todos os tempos. Nem se pense que o poeta lírico está fora do mundo."

"O verdadeiro poeta, tudo quanto ele toca se transforma em poesia."

"Um poeta deveria escrever como se fosse o último vivente sobre a face da terra. - Então, para que escrever? - Por isso mesmo! Como o último vivente, ele não tem de pensar no que pensarão os outros. Às vezes - às vezes? - muita vez o poeta é induzido a modas, quando na verdade não há nada tão ridículo como os figurinos da última estação. Só nunca sai da moda quem está nu."

"O poema,
essa estranha máscara,
mais verdadeira do que a própria face..."

(Mário Quintana)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Federico García Lorca - Obra Poética Completa


CATA-VENTO
JULHO de 1920
(Fuente Vaqueros,
Granada)

VENTO do Sul,
moreno, ardente,
que passas sobre minha carne,
trazendo-me semente
de brilhantes
olhares, empapado
de flores de laranjeira.

Tornas vermelha a lua
e soluçantes
os álamos cativos, mas vens
demasiado tarde!
Já enrolei a noite de meu conto
na estante!

Sem nenhum vento,
acredita em mim!,
gira, coração;
gira, coração.

Ar do Norte,
urso branco do vento!
Que passas sobre minha carne
tremente de auroras
boreais,
com tua capa de espectros
capitães,
e rindo estrepitosamente
do Dante.
Oh! polidor de estrelas!
Mas vens
demasiado tarde.
Meu armário está musgoso
e perdi a chave.

Sem nenhum vento,
acredita em mim!,
gira, coração;
gira, coração.

Brisas, gnomos e ventos
de nenhuma parte.
Mosquitos da rosa
de pétalas pirâmides.
Alísios destetados
entre as rudes árvores,
flautas na tormenta,
deixai-me!
Tem fortes cadeias
minha recordação,
e está catriva a ave
que desenha com trinos
a tarde.

As coisas que vão não voltam nunca,
todo o mundo sabe disso,
e entre o claro gentio dos ventos
é inútil queixar-se.
Não é verdade, choupo, mestre da brisa?
É inútil queixar-se!

Sem nenhum vento,
acredita em mim!
gira, coração;
gira, coração.


Obra poética completa / Federico García Lorca; tradução de William Agel de Mello, 5. ed. - Brasília : Ediotra Universidade de Brasília, São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004 - 704 p.: il. Título original: Poesias completas

Nascido em 5 de junho de 1898, em Fuente Vaqueros, quando a Espanha tentava florescer nas letras e nas artes, Federico Garcia Lorca teve em Granada, provincia de sortilégios e muitos apelos telúricos, seu berço e túmulo.

O poeta e dramaturgo de trágico destino legou-nos uma obra que ultrapassou as fronteiras do tempo e de sua tão querida espanha. Esse artesão da palavra produziu, em tão breve período de tempo e de forma tão intensa, uma obra que reúne a essência do pensamento e da sensibilidade hispânica aliada a uma poesia com os traços universais que caracterizam os grandes poetas.

A vida e a obra de Garcia Lorca delinearam o perfil de um homem versátil, irrequieto, questionador, carismático, espontâneo e musical, amante da vida em todo o seu esplendor. É o poeta que levanta o grande véu que encobre as coisas do mundo vísível, que alimenta nossa alma e torna nossa vida menos feia e menos triste, cantando nossas alegrias e chorando nossas dores com o sublime ofício da palavra.

sábado, 4 de setembro de 2010

Knut Hamsun - fome

Fome / Knut Hamsun; Tradução de Carlos Drummond de Andrade - São Paulo : Geração Editorial, 2009, Ficção Norueguesa, 171páginas.

"Naquele tempo, com a barriga na miséria, eu vagava pelas ruas de Cristiânia, cidade singular, que deixa marca nas pessoas..."

"Fome", belíssimo romance universal, tradução de Carlos Drummond de Andrade, prende a atenção do leitor não somente pelo fundo histórico da narrativa, dos tormentos de um escritor vagabundo e famélico que vaga pelas ruas atormentado com um toco de lápis, como o qual escreve crônicas para os jornais, dependendo disso para não morrer:

"Durante todo o verão vagueei pelos cemitérios ou no Parque do Castelo: aí me abancava e escrevia artigos para os jornais, colunas e mais colunas, sobre as coisas mais diversas: invenções estranhas, maluquices, fantasias de cérebro agitado. Em desepero, escolhia frequentemente os assuntos menos atuais, que me custavam longas horas de esforço e nunca eram aprovados. Acabado o artigo, atacava outro, e raramente me desencorajava pelo "não" dos redatores-chefes, dizia sempre a mim mesmo que acabaria vencendo. E, de fato, se estava de veia e o artigo saía bem feito, acontecia-me receber cinco coroas pelo trabalho de uma tarde."

Comovente, o livro descreve de forma tragicômica as agruras de um escritor miserável e vagabundo e todo um mundo de excluídos em labirintos pelas ruas da antiga Cristiania (hoje Oslo, capital da Noruega). Enquanto a vida pulsa, o personagem reflete de maneira profunda sobre o sentido da vida, sobre Deus, sobre o estar no mundo.

"A idéia de Deus voltou a preocupar-me. Era absolutamente injustificável de sua parte interpor-se toda vez que eu procurava um emprego, e estragar tudo, quando minha aspiração se resumia em ganhar o pão cotidiano. Eu observara muito bem que, se jejuasse durante um período bastante longo, era como se os miolos me escorresem suavemente do cérebro, esvaziando-o. A cabeça tornava-se leve, como que ausente; já não lhe sentia o peso sobre os ombros, e, se olhava para alguém, tinha a sensação de que meus olhos estavam fixos, arregalados.

Sentado no banco, e absorto nessas reflexões, sentia-me cada vez mais azedo com relação a Deus, por causa de suas insistentes provocações. Se ele supunha chamar-me para junto de si e aperfeiçoar-me pelo martírio, acumulando mortificações em meu caminho, estava um tanto enganado, podia garantir-lhe. levantei os olhos para o Altíssimo, quase chorando de orgulho desafiador, e disse-lhe essas coisas uma vez por todas, mentalmente."

Knut Hamsun, autor, foi estivador, lenhador, marinheiro, sapateiro, condutor de bonde, jornalista, cuidador de frangos. Viveu nos Estados Unidos, vagou pela Europa, e esta sua vida errante e de sofrimentos moldou-lhe o caráter, dando-lhe inspiração para criar seus vibrantes personagens. O escritor atormentado de "Fome" é ele mesmo. Controvertido, excêntrico, polêmico, avassalador e monumental em sua obra cheia de sangue, vida e furor. Knut Hamsun recebeu o Nobel de Literatura de 1920 e curiosamente perdeu o cheque no retorno do prêmio. Só ele! Hamsun nos deixou uma obra paradoxalmente plena de amarguras, sonhos e descrenças, mas também de alegrias, otimismo e esperanças. O personagem de "Fome" nos desperta pena, mas também admiração e até inveja. "O romancista universal da dor serena".

"À medida que as horas passavam, eu me via cada vez mais carcomido física e moralmente, e deixava-me levar à prática de ações cada vez menos honestas."

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails